
Sempre me deparo com o não ter a quem ligar, ou olhar para metade da agenda e declara-lá inútil, ou tentar algumas pessoas, uns amigo distantes o qual não sabemos mais o que fazem ou onde vivem, mais sempre uma furada, falarão dos diplomas, das viagens a Europa, do casamento no fim do ano, do filho a espera, a primeira colocação no concurso, desisto mesmo antes de discar o primeiro número, então penso em sair conhecer gente nova, falar coisas que na manhã seguinte não te perguntarão, nem cobrarão promessas, nem te ligarão contando do namorado que a deixou esperando na porta do cinema, muito menos te chamará para ir a alguma festa forçado, fazer caras e bocas, perguntar de onde você é, o que você estudou, trabalha com o que, ou dizer umas verdades fúteis como você é bonito, diferente dessa gente toda, ou pedir-lhe um beijo sem gosto, beijo de sexo, depois sumir no meio da multidão com um martini ao lado, pedir seu telefone para fingir ligar no outro dia ou no meio da semana com vontade de fazer sexo, ou nem olhar mais a sua cara vazia, muda e quase irreconhecível de tantas, e muitas saídas, hoje não me rendo, o quarto é melhor que tudo, melhor com uma canção de final de filme trágico, coração pulsante a espera de que alguém ligue, nem que seja para a voz sentir chamar seu nome, apelido, perguntar como vai, o que esta fazendo, e você inventa alguma mentira para não repetir mais uma vez que esta escrevendo que não tem saco, nem vontade de usar a máscara do cotidiano, escovar os dentes pentear os cabelos, ou nada disso, acompanhar alguém a rua, ir ao teatro, chorar quando alguma coisa no espetáculo falar de vocês dois, lembrar a primeira briga, a primeira transa, a primeira semana sem se ver, a primeira ligação rejeitada, o último encontro, a última conversa. Pensou seriamente se queria viver a mesma vida de antes, não duvidou em escolher a roupa no guarda roupa, em passos largos quase dançante, escolhei um jazz antigo cheio de vozes finas, caprichosíssimas nuances repetindo o movimento do banho, quase triunfal de tanta vida escondida debaixo de cada desconforto passado, só resta uma noite tranquila e calma, talvez em algum restaurante, bar, ou mesmo a cama, acordar como se nada tivesse acontecido, ou pensar estar nascendo outra vez num belo dia de sol.
(Celso Andrade)