Páginas

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Eu queria ser só um sonho, uma flor que passa despercebida no canteiro, numa esquina ou estrada. Eles não se contentam com  demanda, eles oferecem muito, acham muito eu com tão pouco que levo adiante me certifico que só o sol e a água, o cheio da terra em dias nublados servirão para acalmar o ócio. O ácio ocioso de contar os minutos que atravessam a minha pele seca, de tantos sóis e chuvas, poeiras da demanda, da correria. Já  me fizeram cópia plastificada, fotografia em cores, e não conseguiram cheiro, nem chegaram perto da essência, eles passam todos os dias, os dias simplesmente passam. Eu balanço, me mecho de um canto a outro.pareço fixa, florzinha de canteiro, que não dorme porque a lua me vigia, e então saío dama da noite pelas passagens e brechas da vida.



Celso Andrade

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Já não há anseios tão devassadores.
Nem gulas frenéticas ou noites insones.

As noites tem sido mansas pois chuvosas.

Embora os pensamentos estivessem em
outras camas ou outros restaurantes,
jantando, na esperança de parar em
outros bairros, comendo em outros pratos.

Eu já deixo de existir, quando deixo que as lembranças
gritem pelo corredor, que o teu sorriso
morda a maçaneta da porta, e os sonhos atravesses
minhas duras e cinzentas paredes.

Que as tuas canções favoritas soem como mantra
no som do vizinho que não dorme.

Pois hoje posso afirmar que os meus domingos são azuis.
Não há muita coisa além de sono, a música do vizinho
e algumas idas a cozinha.


Celso Andrade

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

E a gente se encontra na mais suave das noites, escuro e a casa já transbordava de gente de todas as partes da cidade, era bem tarde quando seu olhar fixo e as nossas mãos se tocaram, mas era só um tombo proposital de quem chega com sede de afagos e fugas da realidade.

Meu amado putinho, naquela noite tive o brutal e perverso prazer de te foder docemente e te sentir cada parte do teu corpo, roçar cada pelo meu no teu suor de moço com olhar doce e convidativo. Deitado sobre as minhas pernas, o seu olhar fixo e irresistível me dizia o que não ouso repetir.

Era certo que depois de algumas horas você partiria para muito distante e eu ficaria parado naquela posição deitado com o teu cheiro pelos lençois e travesseiros, esperando que você volte e deposite o teu corpo contra o meu como numa fusão de sentidos, para que então eu possa sentir novamente os seus pelos quentes e úmidos depositar o odor das tuas partes nas fissuras da minha boca, cada barulho da tua respiração no meu ouvido, os movimento da tua bunda branca e cada beijo nas tuas cicatrizes.

E eu te deixo partir, porque enxergo nos teus olhos espelhados, a volta, e então para sempre será o meu amorzinho querido, meu eterno putinho.

domingo, 15 de setembro de 2013


Um matagal cresce em mim de maneira insuspeitável, como o mofo que consome qualquer coisa deixada livremente aos insetos, ao ar.
Rosas também nasce desse matagal, pássaros fazem ninho dentro de mim.
Aos poucos me tornarei uma mata densa, úmida e fria.
Crescerei por todos os lados, galhas e flores me cobrirão até eu ser só uma floresta de nome desconhecido. Perdida no tempo.


Celso Andrade

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Essa noite, eu procurei loucamente um poema de Barthes que eu havia lido no ginásio, num daqueles livretos que ficam abandonados no canto da biblioteca, onde ninguém chegava lá- não sei se pela falta de luz ou preguiça pra tirar a poeira de cima deles - eu me lembro que demorava horas folheando aquele amontoado de livros no colo, um por um,até encontrar um verso de Barthes que dizia: De amor não falemos. De que serviria dar nome ao que encerra somente o equívoco?
Eu estava debulhado em Barthes como numa cena ponográfica dentro da biblioteca, algo fixo e obsceno para alguém do ginásio, cada verso era perverso e prazeroso, transávamos no canto escuro e sombrio do colégio eu, Barthes e o verso que nunca saiu da minha cabeça, tão novo e já tinha amante.
Depois que saí do colégio e perdi "R.B."- como passei a chamá-lo entre uma ida ou outra a biblioteca - não recebi nenhuma carta imprópria, com caracteres libidinosos lúbricos e indecentes.


Celso Andrade

sábado, 3 de agosto de 2013

Estavam todos lá, o corpo, o ar desesperado, as pequenas mortes, o vício, como e costume a fotografia vinte anos mais novo, sequer alguma mudança, não haviam sonhos, havia rancor pendurado paredes adentro, no quarto o senso comum, a desesperança de quem já nasce no abismo- como uma boate escura e barulhenta, não há espaço para a solidão só a multidão salva. Intactos os cabides, as roupas sequer haviam sido retiradas do sol, outono já cansado ia embora como cachorro que já deixara de existir solitário na espera de dias mais quentes, era a repetição de ilusões- pendurado pelo tempo corroído por traças sem piedade dos que vivem de ilusão e inverdades. Isso foi o que encontrei dez anos depois que fui embora.



Celso Andrade

sábado, 20 de julho de 2013

Da última vez que você me escreveu, parecia estar numa atmosfera iluminada de esperanças, a sua estranheza era familiar, por isso nos entendemos, pelo esquisito jeito de perder o ponto da humanidade, é por esses acontecimentos que nos encontramos vagando pela noite tentando unir solidão e dor.



Celso Andrade

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Luci vive

Eram grandes seus olhos, sua boca era faminta por menos humanidade, sua loucura devorava os dias como se fossem dedos sem unhas, e ela dançava em volta dele num ritmo de oração a catar das ruas flores já esquecidas. Eu passei minha vida a observar o que ela procurava no ponto acima da sua cabeça, talvez era falta de movimento, ou quem sabe era a melhor maneira de se manter gente. Ela não tocava no ponto, não sei se era medo do depois ou era só uma forma de agradecer a lucidez que permanecia depois dos encontros consigo mesma.


Celso Andrade

sábado, 20 de abril de 2013

O que dizer amor além do corpo que em véspera era só um corpo a me unir a ele com alma, mas era só corpo amor, e ele se foi em passos largos de dias, de sábados e domingos, quando caminhávamos entre os cafés da Sicília, mais amor eu quero só falar do corpo, esse que você me trouxe pra então adorar entre um culto e outro no escuro da sua casa, a pedir sem nenhum remorso perdão pelo humano em mim, pelo susto de viver que até você, corpo chegar deu nome a isso que brota, e se corpo não fica, também não durmo, continuo esperando a olhar pela luz que sai no seu quarto. Quantos a noite esperou por alguma resposta ?
A Morte verbaliza no terminar da luxúria.
Só eu volto a espiar pela janela o tempo que nem sequer ousará a se repetir, então o chamo de meias loucuras do corpo com o tempo, o nosso amor mais adormecido.


Celso Andrade

sexta-feira, 15 de março de 2013

Na roda, ninguém é igual a você


Mesmo ausente, me vendi, estive presente nas rodas, sentado nas calçadas e me desfiz em multidão, e esse tempo presente na roda, eu conheci o que era distante, mais na ausência não fui integro, penso como milhares de pedaços espalhados pela cidade que não me pertence, componho alguma coisa que vaga por ai consumindo e dela faminto de presença nos encontros sociais, as rodas nos tiram a essência, e nos põe uma densa massa na nossa face, e então sobrevivemos os dias com o mais pequeno gesto de apenas ter que pertencer a roda e alimentar sua sede infinita com pequenas frequências, e nesse tempo me decomponho em humanidade e mentira.


Celso Andrade

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

E eu já não conheço os caminhos

Tenho uma alma meio dama da noite, que brilha no silêncio, que faz festa com o neon, que se deita com o mar como deita o corpo sobre a rede na casa da praia, a mais esquecida, mais tranquila, lá não se atende telefone, nem fica sabendo das notícia do jornal, não há estréias, só renascimento, as vezes a dama da noite se transforma em uma louca perplexa pela luz do sol e sai a sorrir pela rua como se não existisse ninguém.


Celso Andrade

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Quase pulei,
Mas em hesitar descobri que além de amor
Eu tenho fé.
E na dúvida
Sei que não sou forte
Para decidir nada
sobre a vida.

Celso Andrade

segunda-feira, 10 de setembro de 2012


Falhos versos, entre empoeirados livros a vida termina numa página rasgada, numa página esquecida.
Os donos o renovam ao comprá-lo, mas sua tinta a ferro gravadas em toda sua extensão, e de tudo transborda, de pular poças d'água, dos empréstimos a desconhecido. Quem sabe curiosamente que te comparo ainda que hermeticamente me safo, me engano e assim permaneço a um ponto que não chega, que já nem existe. E assim estou mudando sempre de conceito, significo vários pra todos, sou único, se parto ou fico gravado como letras em livros, como uma alma sem esperança, de qualquer forma alguém vive.


Celso Andrade

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Prayers for me



E incontáveis vezes eu tentei te escrever como era difícil o frio da Europa, e por sorte reencontro seu novo  endereço, nove meses e você nem imagina como foi me perder do Brasil, a princípio me identifiquei com as ruas, sim, são iluminadas por uma espécie de compaixão divina, porque como você sabe isso aqui já foi palco de tantas guerras, mas você não imagina a falta que escrever pra algum lugar do mundo que fosse distante me fizesse retroceder, quando fui duramente afrontado pelo espírito da derrota, e meus olhos que se perdiam entre os carros com impulso e vontade de pular na frente de um deles para então não sobrar  endereço nem passado. Juro que tentei te ligar para então você me dizer alguma coisa que eu pudesse acreditar outra vez, para contar alguma coisa que me fizesse ter fé em alguma coisa além de mim, e do gosto podre de desilusão em tudo. Eu queria que você soubesse da vontade de gritar e abrir os braços para então chorar e mandar embora a raiva e o repúdio preso na garganta, eu queria que você soubesse que nenhuma carta chegou na casa da minha mãe porque, me ausentei do brasil, da minha rua e casa. Se ela me  imaginasse andando por parques e praças para chorar a dor e saudade de alguma coisa que eu nem sabia o nome mas tinha corpo e alma de solidão. Saiba que te escrevo só para saber que ainda estamos salvos do mundo.

Te mando bons ventos da Polônia


Celso Andrade

segunda-feira, 16 de julho de 2012

E na estrada todos se perdem, aos que não mais serão lembrados. amigos de outrora, parceiros inesquecíveis não existirão mais além da imaginação do momento e da roda dos que nos acompanharam em carona ou surgiram pelo caminho. Já dizia meu "velho" esquecido no seu leito: Pega tua musica e vive, num canto ou a rodar o mundo como nômade, porque quando nada mais sobrar, nem amigos pra contar estórias você terá,  apenas a estrada e nenhum passado, só futuro e uma música para servir de consolo. Então assim estarás livre do ócio e seu astuto dom de desfazer sonhos.


Celso Andrade

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um dia prometi deixar as portas abertas
E ficaram..

Só não sei te mandar embora.


Celso Andrade

terça-feira, 26 de junho de 2012



Ah! Se me deixassem flores,
como deixam pedras na porta de casa.

Na minha rua não tem estação definida,
então me invento na madrugada,

Foi o que deixaram pra mim.

E do silêncio,
Renasço porque morro todo dia.


Celso Andrade

terça-feira, 12 de junho de 2012


No escuro vejo,
te vejo
Nos enxergo
num futuro-presente
ausência,
escorre devagar para não chegar logo o
presente-futuro
sem
ninguém.
Nós, eu e eu.


Celso Andrade


domingo, 10 de junho de 2012

Ao que é bom e doce, a vida, ao amor!


Acordar ouvindo tua respiração,
assim como respira o mar pelas ondas,
sussurros, vai e vem estamos grudados em pele.

Breve, pulsa no meu peito o seu coração quieto da noite,
então espio pra ver se já é manhã, mas você ainda dorme.

E eu volto a dormir pensando como é não ter saudade.

Nada que perturbe a quietude, ondas você ainda respira
e me afogo também em outro sono, quem sabe nos encontramos
no sonho do outro um futuro que não se pode findar.

E antes que nos acorde o sol, deitados nos abraçamos com frio.


Celso Andrade

segunda-feira, 4 de junho de 2012