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sábado, 23 de janeiro de 2010

A senhora X

Desde os quinze anos quando eu ia para a escola eu ficava olhando aquela senhora no banco da praça dando migalhas aos pombos ou cuidando do jardim da sua casa, aquela parecia uma vida monótona numa cidade grande, até que num dia de chuva já com mais idade, parei bem na porta da sua casa e então perguntei porque levava consigo aquela expressão de tristeza e cansaço, aquela vida aparentemente parada, ela nem parecia espantada com a minha pergunta intrometida, levantou-lhe aqueles olhos brilhantes-como se ainda estivesse muita esperança- e respondeu-me que monótona era a vida que vocês "urbanos" levam, estudam tanto tempo, depois passam a vida trabalhando como escravos, pois a única diferença é que recebem mas logo vem o casamento, filhos e família, ou então gastam com bebidas e baladas, não sobra espaço para o afeto, cultivar e cuidar o que nós temos de melhor, do que nos é dado e nem percebemos, vêem a mãe morrendo aos poucos e a colocam no asilo, vêem os pais morrendo por causa da bebida e logo o deixa de lado, sozinho na casa grande, que um dia abrigou filhos e netos em festas ou finais de semana, passamos por mendigos e nem demos conta, hoje ser natural e afetuoso não é natural, pois nosso tempo gastamos em academias, festas, praias, fazendo sexo desenfreadamente, ou assistindo tv, não damos conta do tempo que perdemos com futilidades que nem gostamos mas fazemos porque está na moda e precisa conversar na roda de amigos.
A senhora X calou-se por um tempo, e fitou seus vivos olhos de esperança em mim e disse: Meu filho olhe mais para dentro de você, porque o cotidiano... está internalizado em nós desde criança, o fazemos por inércia, e se eu não cuidar das plantas, flores e de mim, do que é meu, quem cuidará? do resquício de verde que ainda resta nessa cidade?Me despedi da X e fiquei pensativo todo o dia, havia uma alegria em mim igual a que sinto as vezes ao ler livros.

Celso Andrade

Um comentário:

Robson Rogers disse...

De fato. a senhora X tem razão.
Se não cuidamos do essencial... o que colheremos em nosso futuro?